O presente texto procura abordar, de forma resumida, os aspectos principais relacionados a Melchior de Vogüé (1848-1910), crítico, novelista e historiador. Meus agradecimentos ao Prof. Bruno B. Gomide pelas informações transmitidas durante as aulas, imprescindíveis para a composição desse post.
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Embora muitos atribuam à tradição crítica de Vogüé um caráter reacionário e ultrapassado (principalmente quando falamos da crítica dos anos 20 e 30 do século XX), a atuação do intelectual francês impõe-se de forma determinante para o boom da literatura russa no mundo ocidental. Além disso, a ele se deve a formação de todo um paradigma crítico dentro e fora da Rússia, englobando elementos remetentes às concepções de autores como Bielínski e Soloviov – com o qual, aliás, manteve contato direto. Mas, enfim, quem foi Melchior de Vogüé? Qual foi a sua atuação dentro do mundo artístico e literário, e – o mais importante – quais são as ideias presentes entre as páginas de O Romance Russo, obra-referência na abordagem do assunto?
Pode-se dizer que Eugene-Melchior, visconde de Vogüé (1848-1910), teve o seu nascimento marcado por circunstâncias um tanto quanto peculiares: tendo seu primeiro fôlego de vida terrena em pleno local e ano cabalístico da intitulada Era das Revoluções, presenciou logo na juventude as marcas provocadas por esse ambiente efervescente e, a posteriori, em desmoronamento. Sendo impressionado profundamente pela Comuna de Paris e pela Guerra Franco-Prussiana, Vogüé atribui tais acontecimentos à decadência da França – principalmente em relação ao aspecto moral e cultural. Nisso, ele toma para si uma luta intelectual em prol da regeneração e transformação da cultura francesa, pautada, como se poderá ver, em suas convicções fortemente influenciadas pelo catolicismo social de Leão XIII e por uma formação conservadora.
A essência do seu projeto de restauração será encontrada através da carreira diplomática exercida a partir da década de 70 do séc. XIX: atuando em várias localidades do Oriente, Vogüé entra em contato com a vida intelectual russa: passa a estudar o idioma russo, casa-se com uma legítima eslava e trava relações com vários escritores e membros da intelligentsia russa, como Dostoiévski e Soloviov. A profunda essência espiritual dos escritos russos – presente até mesmo, segundo ele, nos pertencentes à corrente materialista em voga na época – impressionou sobremaneira o crítico, que passa a adotar a literatura russa como molde para o mencionado projeto. Nisso, Melchior traduz obras russas, formaliza técnicas de tradução e escreve textos teóricos referentes a temas, aspectos e autores da prosa russa, ressaltando, principalmente, Turguêniev, Tolstói e Dostoiévski – nutrindo por esse último grande veneração. Tais textos, publicados na Revista dos dois mundos (de caráter, cabe ressaltar aqui, fortemente antipositivista e antimaterialista) entre 1883 e 1886, foram compilados em O Romance Russo, sobre cujo prefácio falarei na segunda parte do texto, próximo post.
Por fim, é necessário responder a uma possível pergunta: antes de Vogüé, o Ocidente não conhecia a literatura russa? Não havia análises, estudos sobre a riqueza de seus textos? A resposta está relacionada, provavelmente, à observação da Rússia dentro do contexto internacional do século XIX: frequentemente definida como periferia dentro da Europa, a Rússia – e, por extensão, todos os seus elementos culturais – passou a ganhar os olhares de nações como a França – principalmente em relação aos aspectos referidos – com a política de formação de alianças da segunda metade do século. Por mais que tivesse havido algumas tentativas, dentro da França, de divulgação da literatura russa, cabe ressaltar que a aliança franco-russa foi um evento extremamente favorável à atividade de Vogüé e, consequentemente, ao conhecimento da literatura russa pela França, centro cultural do Ocidente – e por todo ele próprio.
(continua…)